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Cats Can't Write


Na quarta-feira passada, enquanto eu aguardava dar o horário da sessão de Batman V Superman, resolvi começar a ler o livro que estava na minha bolsa. O tal livro era Passageiro Para Frankfurt, da Agatha Cristie, eu me surpreendi totalmente com a introdução do livro, onde a autora discute rapidamente algumas questões que surgem na vida de um escritor. Ela começa seu pensamento da seguinte maneira: 

“A primeira pergunta que se faz a um escritor, pessoalmente ou pelo correio, é:
- Aonde o senhor vai buscar suas ideias?” 

Acho muito divertida a situação de contar à alguém que eu escrevo, pois isso gera as mais variadas reações nas pessoas, algumas ficam em silêncio me encarando como se tentasse entender o que significa “escrever”, outras ficam surpresas quase como se fosse difícil acreditar. Independente de qual seja a reação, diversas vezes eu ouvi a pergunta “de onde você tira as ideias para suas histórias?” e eu gosto de responder “da vida”. 

Pode parecer meio absurdo dizer que a vida é uma grande inspiração quando eu escrevo histórias em lugares que não existem e com pessoas super poderosas, porém não é.

Eu tenho o costume de observar tudo à minha volta, eu sou curiosa, quero entender por quê as pessoas fazem o que fazem, o que as levaram àquele lugar e para onde vão depois. Como são informações que não se consegue com facilidade, cabe ao meu cérebro criá-las e assim da forma mais simples possível uma ideia surge. Antes de tudo uma ideia surge de algo comum, as vezes de alguma coisa que vi, de algo que ouvi, ou que li. 

Então a partir do momento que eu tenho a ideia bruta em mãos, eu começo a questionar a própria história na tentativa de tirar o máximo de que puder daquela ideia e o que talvez eu mais goste de fazer é perguntar aquele famoso "e se...?". Como seria se um garoto se apaixonasse pela primeira vez? E se uma cidade adorasse uma super heroína? O que uma vilã faria se de um dia para o outro descobrisse que seu herói está morto e não foi ela que o matou? Como uma pessoa comum reagiria se em sua pequena cidade começasse uma onda inexplicável de assassinatos?

As histórias nascem das perguntas, quem nunca questionou a vida? As histórias nascem das nossas experiências, quem nunca perguntou o que teria acontecido se tivesse agido diferente? As histórias nascem de outras histórias. No fim das contas a vida se fez arte e fantasia tornou-se real. 

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Fonte: planeta png.

Criar um universo próprio é a forma de trazer ainda mais singularidade a uma história, ou no meu caso, foi mais como uma rota de escape por não saber o suficiente de uma época e principalmente de um lugar. Na minha história Corrida Do Ouro, eu acabei por criar um lugar, pois como não encontrava muitas informações concretas quanto as cidades e afins do período da Febre do Ouro e o chamado Velho Oeste, eu estava apavorada com a ideia de escrever tentando utilizar a zona sul dos EUA e fazer m****. 

Então a minha forma de fugir desse medo foi criar um lugar, apesar que no começo eu senti aversão a ideia, pois não queria algo “falso”, mas pensei bem e vi que além de eu ter total liberdade criativa pra fazer o que eu bem entendesse daquele lugar, ainda seria uma boa experiência tentar criar algo ainda maior, algo que nunca havia tentado antes.

As ideias a seguir são bem pessoais a respeito do assunto, pode não ser algo universal, são coisas baseadas na minha experiência até agora criando um universo próprio. 

Abuse da criatividade, mas não viaje na maionese.
Ok, o que eu quero dizer com isso? A não ser que seja a sua intenção fazer um negócio totalmente absurdo, tipo pinturas surrealista e abastardas, você precisa ter cuidado com o que cria, pra não ser algo beirando a insanidade, pois a nossa intenção é criar um lugar, que mesmo não sendo real, ele passe o sentimento de realidade. E caso esteja com dificuldades nesse tópico, vamos ao próximo: 

Baseie-se na História.
O senhor George RR Martin já falou que baseou conflito Stark VS Lanister na Batalha das Rosas (que você pode entender o que foi e de forma bem divertida nesse nerdcast). E eu estou baseando muita coisa da minha história nos próprios acontecimentos da época do Velho Oeste, como a corrida do ouro, que é justamente o que dá nome a história, o conflito homem “civilizado” VS índio, Guerra Civil, entre outras coisinhas. A História é uma fonte inesgotável de ideias e base para muita coisa. 

Em circunstância alguma você pode se esquecer da diversidade. 
Vamos lembrar que cidades, países e continentes são feitos de pessoas das mais variada etnias, mais variadas cores de peles, mais variadas crenças, etc... Em Corrida Do Ouro, eu trabalho com narração em terceira pessoa, com narração de vários personagens e em diferentes locais do país, fico constantemente me lembrando dessa diversidade, pois estou lidando com diversos locais, com uma variedade imensa de etnias. 

Você pode criar mapas.
Eu não sei se existem regras pra se criar mapas, mas se existirem provavelmente quebrei todas elas. A finalidade de se criar um mapa foi apenas pra eu ter uma noção de onde as cidades ficam, onde tem mar, onde tem rio, etc. Tentar criar e guardar tudo isso dentro da minha cabeça seria exigir de mais do meu cérebro, então o mapa serve pra aquilo que ele sempre serviu: guiar. 

E quanto ao idioma. 
Pra falar a verdade essa foi uma questão com que não me preocupei muito. Eu não tenho capacidade alguma pra criar uma nova língua e nem vou me arriscar nessa área, apesar de na minha história existir uma índia entre os personagens principais, não criei diálogos em nenhuma língua indígena.

Não transforme sua história em um livro de História. 
Você tem um novo país em mãos, ele tem uma história como qualquer país e você vai precisar explicar isso a quem está lendo, porém não pode transformar a narrativa em um texto de livro de História, vai tornar algo maçante e deixar a pessoa com a sensação de tédio enquanto lê. Você precisa encontrar a sua forma de colocar a História de uma maneira leve e que ela se case com a narrativa, sem parecer que abriu um imenso parênteses entre um parágrafo e outro.

Mas de forma alguma esqueça da História!
Se tem uma coisa que eu, como leitora, odeio é ler algo que se passa ou em uma distopia, ou um mundo próprio, e ter informações rasas ou quase nenhuma sobre a História daquele lugar. Chega a ser frustrante! Estamos lidando com um lugar criado por você, toda informação desse lugar está exclusivamente em sua mente, não pode escrever a história esperando que o leitor entenda por osmose aquele local. Você não precisa ter tudo em detalhes, mas o mínimo possível. 

Seja ousado! 
Entendeu que não precisa viajar na maionese pra ter um lugar próprio, use e abuse da dosagem certa de ousadia. Não fique se prendendo pelo o que os outro já criaram, se está em dúvida se deve ou não colocar algo em seu universo alternativo, converse com as pessoas a sua volta, explique a elas o que você quer e pergunte o que cada uma acha. Aquele lugar é seu, as regras quem vai ditar é você. Se tal autor fez de tal jeito, você não tem obrigação nenhuma de seguir aquele jeito, aquilo serviu para aquela história. Não tenha medo de ser ousado. 

Pros de um AU: Você tem total liberdade e controle do local onde a história se passa, você tem uma ampla gama de coisas à explorar da forma que sua mente quiser.
Contras de um AU: Vai dar muito mais trabalho, pois antes de começar a escrever você precisa ter o mínimo de informação do local. Você vai exigir ainda mais de sua criatividade. 

Quando eu parava pra pensar em criar um próprio mundo, me parecia algo terrivelmente complicado, realmente não é fácil, porém não é impossível. Vai exigir mais esforço da sua parte, por outro lado é um processo criativo um tanto interessante, estou adorando trabalhar um lugar próprio, a liberdade que isso me proporciona é indescritível, torna a obra ainda mais pessoal. 

Se você tem vontade de criar um universo alternativo, criar o seu próprio país, acredito ser uma experiência interessantíssima, pela qual vale a pena passar ao menos uma vez. E como parece existir um nerdcast pra cada ocasião da vida, existe um sobre criar mundos que vale a pena ouvir, você pode fazer o download aqui.

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Divagando sobre a imprevisibilidade da vida e como ela pode nos tornar criativos sofredores.

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